O que dá vida à radionovela? (Narrador – parte 2)

Antes de ler a publicação a seguir, é interessante ler O que dá vida à radionovela? (Narrador – parte 1)

Na pesquisa para o Universitária em Cena, foram estudados oito tipos de narradores:

1- narrador onisciente intruso,

2 – narrador onisciente neutro,

3 – narrador testemunha,

4 – narrador protagonista,

5 – narrador onisciente múltiplo,

6 – narrador seletivo,

7 – narrador em modo dramático e

8 – narrador em modo câmera.

 

Vamos saber um pouco mais sobre cada um?

O narrador onisciente intruso é o tipo do narrador que se coloca onde quer na história. Tem a liberdade de narrar a seu gosto e satisfação, assumindo (às vezes) uma postura divina, mudando e adotando vários canais de informação, fazendo valer suas próprias ideias e percepções. O adjetivo intruso refere-se a questão dos comentários desse tipo de narrador sobre a vida, os costumes, a moral que podem ou ter alguma coisa a ver com a história. Como exemplo deste tipo de narrador na língua portuguesa, podemos citar a obra Quincas Borba, de Machado de Assis. O narrador sabe de tudo, comenta, faz críticas, coloca suas próprias ideias sem imparcialidade, driblando a todo o momento quem está lendo a história. O naturalismo que veio a seguir prezou pela neutralidade das informações passadas pelo narrador e Machado, claramente utiliza esse tipo de narrador para romper com a semelhança do real com o imaginário.

O segundo tipo de narrador fala em terceira pessoa, descrevendo o a caracterização dos personagens sem se intrometer e expor seus comentários sobre as ideias gerais da história e comportamento dos personagens, delimitando sempre o campo de relação entre o leitor e o que está sendo narrado. O narrador onisciente neutro tem sempre a percepção predominante dos fatos, formando uma narrativa objetiva. A exemplo dessa segunda classificação de Friedman temos Flaubert em seu livro Madame Bovary, valendo ressaltar que nesta obra não foi utilizada somente a classificação tratada nesse tópico, pois Flaubert é um autor inteiramente livre nas suas composições.

O narrador testemunha é aquele que faz parte da história. Narra em primeira pessoa, vive todos os acontecimentos da cena e com isso dá ao leitor uma visão mais real dos fatos narrados. O narrador se vale apenas do que viu, ouviu, leu, podendo lançar hipóteses, expressar sua opinião sobre como o leitor deve ser colocado: próximo, longe da história ou alternando entre ambos, apresentando tanto resumos da narrativa como separando esta última entre pontos e cenas.

O narrador protagonista é o personagem central da história. Esse tipo não tem acesso aos pensamentos dos demais personagens e o que é relatado por ele se detém apenas ao que diz respeito a ele mesmo, ou seja, apenas suas emoções, percepções e pensamentos interessam e são relatados. O narrador protagonista narra do centro da história, até mesmo porque ele é o próprio centro, o que realmente interessa e coloca o leitor em uma constante mudança de distâncias da história. A título de exemplificar o narrador protagonista, pode-se citar Grande Sertão Veredas de João Guimarães Rosa (1967) que nos traz Riobaldo (este narrando a história já na velhice, a partir de suas memórias, porém, apesar de saber de tudo não informa ao leitor os fatos decorrentes) e Diadorim, protagonistas da história, que comunicam ao leitor tudo o que vêem.

A onisciência múltipla apresenta uma peculiaridade com o próximo tipo de narrador, o onisciente seletivo que é um recurso gramatical chamado discurso indireto livre, diferente do narrador onisciente neutro que se vale do discurso indireto. Os canais utilizados pelo narrador onisciente múltiplo podem ser os mais variados possíveis, passeando sempre entre ângulos de visão próximos ou distantes dependendo da quantidade de informações que ele deseja passar. Um exemplo de narrador onisciente múltiplo na literatura brasileira é Vidas Secas de Graciliano Ramos.

O narrador seletivo pode ser entendido a partir da definição do tipo anterior, porém nesse caso existe apenas um personagem limitado a ele mesmo, de um centro fixo. Os canais para se comunicar com o leitor ou ouvinte são os mais variados possíveis, usando sentimentos, percepções e pensamentos que são mostrados de forma direta. A narração é feita minuciosamente assim como o mundo descrito, recaindo sobre comunicação das coisas mais simples do cotidiano, um apego aos detalhes mais mínimos. Esse tipo de narrador é muito característico das escritoras, e a título de exemplificá-lo pode-se citar Clarice Lispector e Virgínia Woolf, que entendem bem da arte do discurso indireto livre e da própria onisciência seletiva.

O modo dramático diz respeito à delimitação gráfica das falas dos personagens; é um tipo mais voltado para a execução de peças, filmes e novelas, eliminando o autor, o narrador e os estados mentais. São colocadas também algumas notas sobre a execução de cena amarrando os diálogos. É tarefa do leitor deduzir sentimentos, reações e outras significações dos personagens através do jogo de palavras. O ângulo em que a história é contada é frontal e fixo e disposto por cenas ou atos dando menor distância entre o leitor e a história. Para exemplificar o modo dramático no Brasil, pode-se citar Luiz Vilela e seu livro de contos Tremor de Terra, onde a única vez em que o narrador aparece está em uma nota no fim da cena escrito: “Ato de contrição’

O modo câmera do narrador corresponde a ultima classificação da tipologia do narrador de Friedman. Esse tipo corresponde ao máximo de exclusão do autor, onde tenta-se passar ao leitor flashes de realidade como se fosse capturados por uma câmera. A nomenclatura desse tipo foi formulada a partir do romance Good Bye to Berlin um romance-reportagem de Isherwood (1945) onde o próprio narrador em uma das cenas diz: “Eu sou uma câmera”. O que se pode tirar desse narrador são as próprias características de uma câmera.

Então, gostou? Semana que vem tem mais publicação sobre “O que dá vida à radionovela”. Aguarde!

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